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BRASIL, Homem, 46 americanos anos
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MUDANÇA DE ENDEREÇO
AMIGOS DA TRAMA BACANA, A PARTIR DE HOJE PASSO A RECEBÊ-LOS EM NOVO ESPAÇO...
espero que vocês gostem e continuem trocando idéias...
ABRAÇÃO!!!!!!!!!
Categoria: dito efeito
Escrito por Sérgio Luyz Rocha às 11h17
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Crônica de um amor urbano (II)
[...] dos passos e das paixões
Mais um minuto antes daqui (e aqui sempre é um porto que nos permite enxergar uma imensidão de canções e acenos distantes que se despe(de)m para sempre), lá ainda outra coisa e outra disposição antes de tudo e de todos os sinais, algo confortável nos mantendo dentro de uma conveniência certeira que nos trouxesse, intactos e infelizes, ao futuro – este ponto do espaço no qual estamos velhos e conformados com a constatação de que tudo é, finalmente, linear e toda progressão é uma farsa temporal.
Mais um minuto e não nos teríamos olhado, não daquele jeito quase assustado, mãos erguidas como que evitando um choque irremediavelmente ocorrido ou manifestando uma tácita rendição frente à sincronicidade dos passos e das paixões. Mais um minuto e talvez nos olhássemos sem que um soubesse do olhar do outro, talvez tivéssemos tempo de fingir dando outra oportunidade a estas novas empreitadas solitárias cujas veredas levam a contingências naturais e conversas descomprometidas, deixando tudo exatamente como está, você com sua vidinha de empresária bem sucedida (mas, não com aquelas sacolas todas voltando da feira em dia útil), eu com minhas conversas fiadas na banca de jornais que ainda os leio dependurados na lateral sempre aguardando que alguém faça um comentário e então a retribuição, quem sabe caminhar junto e devagar até a próxima esquina que é mesmo caminho e me sinto mais seguro apesar do dia claro, muito claro, aliás, lembra? Sou meio sensível à luminosidade).
Mais um minuto e teríamos continuado nossas vidas como se nenhuma tempestade estivesse se formando à leste, oeste, não importa, como se tudo continuasse no seu devido lugar e os passos fossem mesmo adestrados, as mesmas idas e vindas dentro de um roteiro rigoroso e a paixão não nos cravasse no peito a dor de tanta separação. Improvisações nem pensar. Mas, aquele minuto não passou, paralisou-se na outra quadra, reinventou a duração da manhã e nos colocou frente a frente, mãos erguidas como que evitando um choque ou em sinal de rendição, sacolas de feira arremessando legumes e frutas e a manchete avisando possíveis furacões. Então dizer olá e recolher a feira na calçada, as mãos ao mesmo tempo buscando a mesma laranja e perceber a maciez e a aliança e desculpar-se.
Mais um minuto e quem sabe não a reconhecesse, não de costas, distante quase trinta metros, a não ser que parasse para cumprimentar alguma velha conhecida e se virasse expondo o perfil quase adunco, neste caso os furacões não importariam e passo a passo, lentamente, vinte e cinco metros, vinte, dez e por motivos que atormentam até os deuses do tempo e desafiam as tempestades, olharias na minha direção e trataria de despedir-se fazendo de conta algum compromisso, mas eu já te chamaria pelo nome não lhe dando outra saída a não ser o corredor de pouco mais de cinco metros que então nos separaria. Sorririas? Apenas estenderia a mão e mais uma vez a maciez e a aliança?
Mais um minuto e ao saber dos furacões, talvez eu voltasse sozinho, trancasse portas e janelas e tentasse mais uma vez esquecer que pela esquina, voltando da feira, tu passarias apressada e para sempre.
Categoria: dito efeito
Escrito por Sérgio Luyz Rocha às 17h30
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[...] junto a cada porta trancada, pegadas [...]
O corredor de um profundo escuro azulado e de tantas vozes intercaladas na morte seria toda vez um desafio. Suas tantas mãos, que pelas frestas não estariam amornadas na falta de assepsia da vida, ainda rabiscariam as camadas de sonho contados em outros tempos. É o mesmo, embora a distância o tenha esgarçado, precipitando-o para dentro como que numa contração de músculos golpeados; é o mesmo corredor na cegueira do abandono reconhecendo seus antigos caminhantes pelo jeito de pisar. É o mesmo que se abriria em quartos e um outro tanto de vivências e fantasmas, de amores suarentos dentro de verões empoeirados, de brinquedos perdidos que hoje pulam a nossa frente como crianças famintas arrastando braços de pano e olhos de tantos enganos, de rezas e feridas curadas com as ervas da madrugada, de santuários e livros proibidos. No fim da escada, quando olhávamos o vazio, corríamos abrir as portas e flagrar um pouco do futuro que por ali ensaiava. Entre as vivências e os fantasmas, no meio de feições que então não se tocariam mais, víamos as semelhanças que um dia correriam ao nosso encontro gritando apelidos de família. Também entre as vivências, antigos discos 78 rotações cantariam sozinhos com a fundura das vozes que atravessaram, além das portas, nossos corações atentos de infância. Pelo profundo da fechadura (tão azul quanto todo o resto da cena preguiçosa que escorria com a luz da clarabóia) ainda veria teus olhos (mais um minuto não fosse meu olho ardendo de arrependimento) intraduzíveis que pareciam navegar um mar de convulsões, mas então sequer sabia destes mares e sequer compreendia o vai e vem do corpo que te escondia, nada sabia das espumas que se arrebentavam na praia do teu púbis dia após dia dentro de um verão sempre inacabado. Quando por fora se revolvia em noite os acordes do nosso retorno, ainda seria corredor, ainda caminho de tantos atalhos não fosse a dor da desaparição, o não-encontro aprisionado no vazio, ainda seria mistério não fossem as pegadas junto a cada porta trancada.
Categoria: qualquer nota
Escrito por Sérgio Luyz Rocha às 22h01
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SEGUNDA NOTA AUTOBIOGRÁFICA
(meio de mato e mistério)
O campo e a lenda sob o sol conversavam enquanto um tempo de pés descalços se movia além de todas as vidas que eram pequenos recados deixados sob as portas para que corrêssemos pelas ruas e deixássemos a cidade e então um banho de temperaturas indescritíveis, pois de outros mundos e de uma água cuja textura produzia palavras e sobressaltos. Da lama da beira dos rios inventávamos prazeres e cosméticos e nos tornávamos pajés elementais dentro de festas equinociais. O mundo se abria pétala, vulva e escapulia ao controle dos cérebros gerando criaturas melhores. Naqueles dias nada era tão distante de olhar e nenhum toque era pecado.
Havia uma ave, habitante de um grito, um grito que retocava instantes de vibração nos vales; quedas profundas voavam a salvo nos braços de deuses campesinos e sorrisos arrebatados lacrimejavam inspirações de chuvas e arco-íris. Era um arremesso de estórias por sobre pomares e vilas e um cântico de olhos clareados na chama; era um avistar de aparições nos caminhos de cerração e inscrições que inundavam o juízo. Também um brinquedo e um poema de súbita cintilação vinham dar sentidos à inquietação daquele meio de mato de tantos gestos incontidos.
(pequenas lembranças de São Pedro, interior paulista)
Categoria: dito efeito
Escrito por Sérgio Luyz Rocha às 17h24
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A SEMELHANÇA DOS OPOSTOS
(ou quem sabe, as vísceras da imagem oposta)
O que procuramos na imagem oposta não são realidades translúcidas que nos permitam a órbita mais sensata, tampouco a visão de uma deusa em pedaços arremetida contra a santidade do escuro. O que procuramos, às pressas e que ninguém perceba, é o desejo de um futuro que em breve acalente este olhar e decrete que a fuga só nos traz de volta. Da imagem oposta queremos as vísceras e os desejos mais profundos, queremos as mentiras como num blefe de cartas, queremos decapitar as medusas que nos enrijecem a alma e saltar pela janela num vôo silencioso e casto, arrebentando a boca da noite com punhos de brincadeira. Na imagem oposta, o que mais nos intriga é a semelhança, são as portas e janelas que se fecham nos meus olhos e se escancaram para o próximo, tão próximo, que também lhe sinto o toque, o hálito infernal de quem é superior, de quem sorri com todos os dentes e ama como um animal. Em geral, o que nos olha da imagem é algo que abusa das mulheres e faz com que os homens tremam depois do amor; é algo que não mais apunhala pelas costas, mas crava a lâmina no peito e rasga-me até a decência; o que acontece então é a própria perdição dos sentidos, é tê-la esfinge, comendo-me aos poucos antes que eu a desencante. O que nos espreita da imagem, se bem que envolta num ar irrespirável de quem chega para sempre, quer-me apenas intocável como que através do frio profundo de um encontro no passado.
(originalmente publicado no blog "Muros de Vento")
Categoria: qualquer nota
Escrito por Sérgio Luyz Rocha às 12h14
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O AVESSO DOS HÁBITOS
Há então de desenhares sobre o azul da tela mágica não a minha solidão de tantas eras mas as marcas que erram nas veias de um calor vulcânico donde culminâncias de uma terra corpórea poderão alardear sua paixão. Correrás por entre os carros aflita como quem procura o próprio lugar e ao encontrares minhas mãos verás que não fui a canto nenhum enquanto sonhavas as miragens de teus mundos coloridos soerguidos de prazer absoluto e dentro de submundos imprevisíveis. Terás um pouco de medo afinal a transparência dos meus modos não combinará com o sol tampouco meus dizeres em retalhos te farão compreender a canção que insisto em compor todos os dias. Há então que conservares um pouco do frescor de uma nudez irretocável e só pelo avesso dos hábitos discorrerás insana o vigor de linhas saborosas permitindo-me a prova das uvas e das carícias que ainda sinto deslizarem líquidas. Debelado o susto inicial percorremos a avenida como noivos que consomem afoitos o caminho para um mar de conspirações embarcadas e no fim da constelação labirintica reviveremos a última hora antes que destroçados esqueçamos nosso amor.
Categoria: dito efeito
Escrito por Sérgio Luyz Rocha às 12h21
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Breve anunciação do que virá
Talvez fosse o fim da noite trespassando nossos sonhos como agulhas que cerzem antigas intenções. Talvez nem isso. Amanhecer sempre tem um gosto de martírio e, por ser assim, corremos sempre que o dia se avizinha agigantando-se para todos os lados. Não somos vampiros, embora não dispensemos a natureza das mordidas. Somos apenas seres noturnos, seres que preferem tramar a vida no escuro, onde as visões são contornos certamente mais fartos. As mãos mais ágeis. A vida é tátil (quando a manhã escapole da mera possibilidade e fulmina com vigor acachapante, apesar ainda de certa preguiça, corremos aos subterrâneos. Pouco antes até cantávamos algumas canções – cantávamos “eu sei que vou te amar, por toda a minha vida [...]” e cantávamos enquanto amanhecia e enquanto amanhecia esquecíamos um do outro e esquecíamos porque não mais acreditávamos que um dia nos amaríamos), e apesar disso e do fim da noite, o banho salva, cicatriza alguma ferida mais à superfície e avisa que estamos prontos, cheirosos, vivos e o que virá ainda é mera anunciação. A sonolência tem um sol vigilante e a certeza de que estamos irremediavelmente sós. E é assim que os dias passam, dentro de uma espera pela noite tão abrigo, tão habitat natural. Os dias servem para sonhar e as noites para viver em carne e osso, mesmo disfarçado, viver, mesmo que as ladeiras digam o contrário e não haja mais nenhuma possibilidade de beber fiado, viver. Sãos as noites quem nos acarinham, seja com as gotas de suas chuvas etílicas, seja com as mãos desconhecidas de alguém tão noturno quanto eu. Nomes pouco importam já que dentro dos pesadelos do dia eles são outros, e não porque esquecidos, mas porque nunca ditos (à noite, os nomes nada revelam). Vida tátil.
Categoria: qualquer nota
Escrito por Sérgio Luyz Rocha às 18h11
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Primeira nota autobiográfica
(nem tão só outra vez)
Ao largo da satisfação e com olhos de imensas distâncias alimento o entardecer com as cores de outros desenhos; são pequenos segredos que desceram dos muros mesmo nos dias em que o outro lado era um perigo (brinquei de pintar-lhe as pálpebras e aparar-lhe os cílios e fazê-la de outras cores que morriam todo fim de tarde e deixavam entrar pelo fim de mundo um sol de poucos minutos e amigos de poucos azuis. A aquarela lhe enganava como um arco-íris já fizera no dia em você partiu dizendo das riquezas e das proezas que realizaria com o fruto do vosso ventre e com a falta de luz). Fica então um azul distante, um desbotamento intrigante cuja redenção se retalha dégradé, miragens de um açodamento que me escorre pelo canto da boca feito sabor milagreiro e que me carrega no colo, nos ombros, corpo de uma pequenez tão absoluta que me entranho pela robustez da história e acho parentes a cada nova mudança de luz.

Então são tantos os mundos e os sorrisos que me vigiam e me procuram pela casa - no colo do avô lendo Lobato, na cozinha dos peixes de mar, nos bordados dos lençóis cerzidos ainda na 2ª guerra, na vizinhança de chácaras e jardins, quem sabe debaixo da escada passagem secreta para um mundo de mandrakes amarelecidos, ou simplesmente na sonolência de menino acarinhado durante os temporais - que nem me sinto tão só outra vez esta tarde.
Categoria: dito efeito
Escrito por Sérgio Luyz Rocha às 14h58
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O VÔO DAS SOMBRAS
(egos e eguns de braços dados carros apressados mergulham nas poças luzes sentinelas clamam detalhes mulheres choram heróis de guerra quando voam as sombras o mundo se cala)
A luz carcomida pelos edifícios vem deitar-se mais adiante; descanso de um sol abatido, deita-se descomunal.
Tão desejosa de si como repouso da própria explosão, a sombra se farta com os desavisados, com a concretude de tudo que se erga e se destrua em composições de intensa luminosidade.
Banha olhos agredidos com a sua densidade calma feita de ausência e os aguça.
São mitos estes olhos que calam à passagem da vida e da morte.
Vida e morte que se esgueiram num tempo sem juízo, onde os pecados não cuidam do equador, nem se misturam aos poemas carnavalizados.
Super dor, esta que sente o homem, dor de outros tempos profundos onde leis e fábulas eram sombras de asas abertas, flores esVOAçantes que enfeitavam o ego torrencial que ainda agora escoa revoluções pouco acreditadas.
Não se cala!
Apenas observa o caudaloso instinto escorrendo pelo canto da boca que grita um manifesto de infortúnios e luzes desmaiadas.
Caça a sombra que o proteja e o leve imaculado por entre outros egos e eguns de nem tantos sortilégios.
Categoria: poetando
Escrito por Sérgio Luyz Rocha às 14h03
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O GARFO DE DALÍ
Os restos depositados nos becos guardam sabores que sorriem uma aguda estupidez, guardam, além de si, odores que não lhes pertencem, mas às grifes cujo comportamento expele arrogância e transforma a cena num desfile de garfos fartos. Embora agredido, sou tão resto como os restos ensacados e também me farto. Enquanto as festas prosseguem, acuo-me num canto e adormeço no exato instante em que talvez começasse a chorar (nem tão longe DALÍ pintaria a nona sinfonia correndo nua pelos ouvidos do seu executor como se fosse uma marcha rancho num carnaval em preto e branco). Sei que dali a pouco, enxotado pela luminosidade do dia, procurarei outros becos com seus restos de desjejuns à cama, onde é possível ver rosas cor-de-rosa e bilhetes de bom-dia, e mesmo que as mãos que as acarinhem e os recolham para a leitura estejam tensas e predestinadas aos garfos de logo mais, sei que a aventura dos vôos se desdobrará bem a minha frente e que os touros na praça não servirão de bazófia e nem de servidão. Um pouco de sorte e terei café quente no fundo de algum copo descartável, quem sabe mordiscado pelo carmim de um batom adocicado e lembranças de um tempo em que também eu era beijado (nem tão longe DALÍ, os beijos brotavam em fornadas de pão de mel e as noites quentes de verão se faziam de colméias para melhor lambuzar as manhãs). Quando os restos são escassos e, por muitos disputados, esmolar um trocado cai-me sobre os ombros como um fardo infernal; as poucas moedas ardem na palma da mão e nos balcões se transformam em doses de esquecimento. Devo entorpecer-me nestes dias imensos e sorrir para os fantasmas, devo espantar os transeuntes para dentro das horas costuradas em penumbra e conversar com os mortos que escapolem a todo instante pelas bocas de lobo com seus garfos na mão, convencendo-os a retornarem para o inferno. Devo discursar por onde não existam caminhos e caminhar o quanto os ossos permitirem, mesmo trôpego, encharcado, dolorido (mesmo que DALI a pouco se abram as bocarras de cada um dos comensais aturdidos pela febre de uma fartura que além da festa chacoalha latas e membros), e chegar a novos becos fecundos onde ainda formigam todos os sorrisos de uma noite calma e estrelada.
(desenho digital by Sr. do Vale)
Categoria: qualquer nota
Escrito por Sérgio Luyz Rocha às 20h56
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Promessa
Juro que tu serias minha vida, déjà vu perpetuado por todos os meus poros e instantes e meu instante absoluto, cósmico, um instante diabólico tatuado no plexo, um instante divino em você e na criação, nos cuidados com as plantas, durante minhas expedições lunares ou minhas audições malucas de Creedence Clearwater Revival e mesmo que o desatino do fim da vida me levasse ao espelho e fosse um estranho que me olhasse, mesmo assim este estranho perguntaria de ti, e de ti falaria a noite toda, contaria nossas estórias, lembraria nossas andanças por ruas e becos e matas, nossos pés tão ágeis transpondo o limo das pedras e depois acarinhando um ao outro, e mesmo que de mim já não fizesse a mínima idéia, de ti lembraria todos os detalhes. Hoje e por tantas outras vidas, lembrar de ti não seria nenhuma ave sem rumo, mas uma revoada migrando para teus confins e teus confins estariam certamente brilhando no espelho quando eu me olhasse procurando por ti.
Categoria: dito efeito
Escrito por Sérgio Luyz Rocha às 15h43
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A PARIÇÃO DAS ESQUINAS

A imaginação das esquinas cria personagens. Por vezes, tanta imaginação é só uma prece aos infernos, de outras, uma evocação aos céus da boca. Os personagens nascem sem personalidade e as esquinas se encarregam de alimentá-los, são macunaímas de uma estranha miscigenação; homens e mulheres trespassados por invencionices populares, marionetes acionadas em tantos terreiros e templos e púlpitos, sandices morenas e aparições tão diáfanas como a incredulidade dos seus corações. Alimentados crescem quase felizes, mas ainda assim vazios. Suas lembranças são silhuetas de mães ausentes e cheiros mornos de vagabundagem, discussões e encontros rápidos sob o silêncio de uma manhã sem pães e beijos alheios se lhes cuspidos nas faces atraiçoadas e tantas outras insinuações que os personagens também crescem divididos entre o certo e o errado e não que saibam algo sobre isso, apenas praticam certos atos e respiram os ares da criação. Os personagens já crescidos partem para novas esquinas em geral abarrotadas de sensações e cores e gostos e gestos e resolvem provar alguma coisa pouco condimentada ou cordial e os espaços se apertam; gritos e gemidos são melodias para ouvidos pouco motivados. Há uma canção que, embora não faça sentido, agrada a um e outro e o acasalamento nestas horas é inevitável. As esquinas são pródigas na produção de cenas. Nesta cena, os personagens acasalam. O tapume é imaginário, e o sexo de graça. Transeuntes se acotovelam inebriados; a baba escorre. Os personagens terminam o primeiro ato e se despedem formais. Amanhã, quem sabe hoje com um pouco de sorte, voltam a se encontrar. Noutra cena, os personagens se espancam tão mecânicos em cinemascope, trágicos gatos e ratos animados, com sangue escorrendo pelo meio-fio e doces virgens correndo de um lado para o outro quando o mais sensato seria correr para um lado só e de uma vez rumo ao paraíso. Os personagens envolvidos são grotescos e cospem caroços de outras estórias; são aberrações criadas sob as luzes de um luar infame cuja diversão sempre foi aprisionar as almas dos namorados e as jornadas dos viajantes. As esquinas imaginam sempre um amanhã melhor. Quando dormem, sonham seus novos personagens. A parição é diária e diária a imaginação.
(ILUSTRAÇÃO: EGON SCHIELE)
Categoria: dito efeito
Escrito por Sérgio Luyz Rocha às 11h07
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Crônica de um amor urbano (I)
Então é mesmo um abismo que se deixa revelar quando passamos um pelo outro e fingimos que não somos os mesmos mesmo que nos olhemos e a mão não saiba exatamente o que fazer numa hora dessas; projetar-se à frente esperando a altura do plexo um cumprimento distante quase sem toque, uma ausência que é quase outra dor. Então-me-desculpe-estou-com-pressa-essa-correria-estou-tão-atrasada-nem-percebi-melhor-eu-ir-até-mais-até-nunca-mais que é mais sincero, mas claro que isso não se diz e o abismo se deixa ultrapassar por uma ponte salvadora que leva você para algum lugar seguro e me carrega até depois desse encontro, a um ponto qualquer onde eu possa pedir um conhaque e olhar um céu que é todo abandono.
Depois, um pouco mais tarde, trôpego e pouco acostumado à escuridão, retomo o caminho; já não há pontes e os riscos são grandes. Uma esquina pode subitamente transformar-se num cadafalso e mesmo um passo em falso pode me devolver à morte. Opto por espiar cuidadoso, olhar tudo e para todos os lados evitando que me degoles de imediato (se é que aos poucos se perca a cabeça). Mesmo a esperança se esvai de uma hora para a outra, mesmo as lembranças ficam foscas fora de foco, às vezes, as pessoas são outras ou sonhos que se exibem inquietos, nas ruas, nas camas, aos prantos ou quando isso acontece é mesmo um encontro suspenso sob um céu que é todo arrependimento.
Então, outra vez no mesmo dia, agora noite absurdamente noite. Profundamente imersa nesse encontro, dentro da possibilidade de um novo ajuste e novos saltos para fora dessa trama que tanto me sufoca e te faz promessas e obriga que eu atravesse as avenidas entre confuso e encharcado, me aproximando mesmo paralisado sob um céu de inquietações e que desaba alucinado.
Nossos olhos se cruzam e a surpresa sangra, sua, exala, nossa-que-coincidência-pois-é-como-chove-deve-estar-tudo-alagado-por-aí-mas-vou-mesmo-assim-é-tão-tarde-eu-não-mordo-vem-mais-pra-cá-ainda-chove-quase-nada-já-vou-tchau-adeus e é assim que mesmo sem as pontes transpomos o indizível e sumimos entre os faróis e os últimos pingos de chuva.
Categoria: dito efeito
Escrito por Sérgio Luyz Rocha às 09h31
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DOS SENTIDOS E DOS ABRAÇOS

Não gostaria de contar-lhe esta estória nem de levá-la pela mão como a uma criança indefesa. Preferiria que o semáforo fosse menos econômico com seu troca-troca de cores e permitisse que você chegasse cedo só para me dar mais algum tempo e finalmente realizar aquele sonho, lembra? Na janela sobre a cidade, como no filme “império dos sentidos”, claro que poderíamos fazê-lo a qualquer hora e não necessariamente em um dia sem trânsito ou de semáforos eternamente abertos para você, mas queria tanto que fosse hoje e que depois você seguisse sozinha e voltasse sem avisos, me surpreendesse falando sozinho ou dançando no escuro, imitando Gene Kelly sem correr o risco de ser flagrado sem o sorriso e sem a ginga. Gostaria das coisas mais simples, quem sabe nem aqui, poderia ser na rua, ao acaso, um esbarrão na esquina, uma consulta sobre o melhor caminho ou a conclusão de que não existem caminhos, um gesto educado permitindo que você pegasse o táxi e a distância apagando a possibilidade de um telefonema, quem sabe um pedido idêntico no balcão da padaria e então os olhares, os risos, a aproximação. A escolha do filme (os detalhes do “império”, ou ainda aquela cisma com o “último tango”, tem também a culinária de “9 E MEIA semanas”), as indecisões sobre a mesa e a roupa de cama, a cor da cortina, bobagens tão imensas e aprazíveis. Mas, quase nada é como desejamos e então, tenho que convencê-la, persuadi-la, enganar-me pensando que a conquistei. De qualquer modo, quando chegar, entre direto, não bata, estarei acordado admirando as luzes da cidade, indefeso, de costas, pronto para receber o teu abraço.
Categoria: qualquer nota
Escrito por Sérgio Luyz Rocha às 13h47
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COISAS DE DIZER
Alguém precipitadamente apaga as luzes e recolhe os cacos (também os casos são recolhidos e minuciosamente revisitados, mas em silêncio, como um felino a espreita). Há uma semelhança clínica nos arranhões e muito do que se deseja para a madrugada despe as ruas das distâncias levando-me à presença de todos. Conjuro as embarcações chegadas com as enchentes e é quase uma sentença esta palavra que fere o escuro da partida.
Uns assim chegando dizem coisas sem saber
outros partem calados que é algo como morrer.
Falo da vida e seus passistas, passantes estupefatos, foliões que procuram um abre-alas e coisas simples de dizer.
Revisitando os cacos (e também os casos numa profusão de letras pedintes e mãos que tolhem nervosas a capacidade de um afago), em navalhadas e nações de órgãos e olhos em cores de ontem que acusam e imploram, mas também choram canções de dizer soluços e de pedir asas à alma, procuram visões infantis que não temam palavras e nem o que queiram dizer. Em verdade, apenas miragens que tanto acalentam os dias nos quintais e sonham com os frutos de um corpo noviço, com os lábios que sequer insinuam coisas simples de dizer.
É quando espantados com o escuro do mundo, ágeis, contudo, em disparada de puro sangue, crêem em soluções que se disfarçam em copos d’água e mágicas canções. Um ou outro crê num filho lindo de todas as raças e arruaças, mas não o reconhece quando se esbarram apressados e procuram os pertences nos bolsos e coisas simples de dizer.
São aqueles que fecham os livros e acompanham as estórias em fuga para dentro de outras vidas, vidas que se tornam mais uma vez uterinas e reproduzem gerações de desejos incontidos. Os passos pesados se levam pelos cômodos e um e outro se encontram; são apenas vozes sem formas que se despedem já ausentes. Têm muito sono e um desejo faminto que inspira um amanhecer de outras redenções mais coloridas, onde o amor seja tão mais intenso e as coisas tão mais simples de dizer.
Categoria: qualquer nota
Escrito por Sérgio Luyz Rocha às 16h28
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